segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Quando no fim

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Quando no fim de um copo, você se dá conta de que não achará o que procurou em cada gota que sorveu. Quando ao fim de uma caminhada você se dá conta de que não chegou aonde achou que teus passos o levavam. Quando a cada esforço, te salta aos olhos que ainda não é o bastante, ainda não abriu a porta certa, ainda não transformou a atmosfera dos teus dias, tenta de novo. Não se contenta, e tenta até doerem-lhe os tendões por tanto querer andar para frente, e no auge do teu suor percebe que não se trata da força, mas da simplicidade com que conquistas teus espaços. Percebe que o mundo em que vives é muito mais interno que externo. Realiza a dangerosíssima viagem drummondiana de si para si.

Chora garoto, deixa rolar a lágrima, deixa pousar um beijo sobre a testa quente e enrugada que apresentas a qualquer um, e deixa rompê-la tua verdadeira face de menino. Deixa vir por terra o Muro de Berlim do seu mundo, deixa vir... “Porque metade de mim é o que eu penso, mas a outra metade é um vulcão” (Oswaldo Montenegro) De dentro. “Que o respeito comigo mesmo seja sempre obedecido com a paz de quem está se encontrando e se conhecendo com um coração maior” (Caio Fernando Abreu).

Tive um dia inteiro de silêncio, tédio, solidão. Como todos saíram me achei sozinho... E, sozinho, me achei. “Os dias que eu me vejo só são dias que eu me encontro mais” (Condicional - Los Hermanos). Vaguei, vaguei até tocar em mim mesmo, bem aqui dentro. Tudo para onde tenho olhado e vasculhado com “uma lanterna iluminando e produzindo ‘sombras’” (C. G. Jung), olhou de volta bem nos meus olhos. “Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.” (F. Nietzsche). E isto que me olhou é “o que não tem decência nem nunca terá, o que não tem censura nem nunca terá, o que não faz sentido” (O que será – Chico Buarque). É o desejo desenfreado e completamente livre de razão, de destino, feito um menino que corre nu e esbaforido “em direção ao que não tem explicação” (Nanda). Estou atrás do que foi que irrompeu, do que quer dizer aquele abraço que apareceu como ausência.

Que a clarividência do contexto em que trilhamos nossas vidas seja todo dia; venha pingando aos poucos e seja cada gota de orvalho a lavar nossas retinas empoeiradas e plumbeadas pela fuligem da rotina. Que o nosso viver, assim sincero e descobridor de si mesmo, seja a melhor prece à nossa própria vida. Que ao fim deste percurso – os doze trabalhos de Hércules ou o rolar da pedra de Sísifo – fique claro, enfim, que não é fim, é re-começo.

Olhando para a imagem do clipe neste texto fiquei tão maravilhado com o significado que ela teve para mim, que entendi que o mundo interligado é muito além desta teia de aranha virtual. Globalização não é o deus internet. É você achar algo feito por alguém que não sabe que você existe, mas que endereçou aquela mensagem a você, assim como a outras pessoas que também não se conhecem. O que liga todos os pontos do mundo não é a internet, não é a economia globalizada, nem são os satélites, é a arte dentro de cada um. Este menino tem muito de mim, veja você também leitor, o quanto ele tem de ti.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sexo Surdo

"O sexo que fazemos é profissional
Planejado, programado
Para um grande final."

Kid Abelha - Um Segundo A Mais



Dias cada vez mais ávidos pelo próximo dia. Assim vejo o homem se apressar mais e mais ao correr do tempo. Tenho pensado muito nisso ultimamente, com ajuda de embasamento de muito do que venho estudando em algumas aulas, vou interligando todos os aspectos que demonstram a dita fragmentação do sujeito, a aceleração dos resultados, a busca frenética por relações sobrepostas, descartáveis, virtuais ou presenciais. Através de uma conversa com uma amiga acabei relacionando com sexo de hoje em dia. Já vi âmbitos onde, principalmente, a relação sexual é coisificada, tomada como uma pílula para alívio de tensão ou auto-afirmação. Algumas pessoas tomam uma atrás da outra. Talvez eu já tenha visto e rodado um pouco para me permitir outro olhar sobre isso: Não gosto de situações forçadas onde se tenta fazer alguém agir de determinada maneira ou onde se força a si mesmo. Outra coisa, tenho problema com gente que fica com nojo. Nunca entendi com é que pode fazer uma coisa, se tem nojo daquilo ou de alguma prática que faz parte, melhor não fazer ou explicar antes. Sim, diga logo antes. Esta semana uma amiga me perguntou se acho que ela deveria dizer antes ao parceiro como ela gosta que seja feito, na hora suspirei porque isso me parece muito óbvio, o cara não tem que ficar adivinhando. Embora alguns homens ajam como quem já sabe de tudo. Defino com segurança que a relação começa antes do ato em si. Antes de um corpo conhecer o outro, começa na boca com a troca de beijos e de palavras (nessa hora estar fazendo psicologia me ajuda a aguçar a escuta), e acho importante ter atenção nas preferências. Começa na dança entre os olhares, numa atmosfera que precede o ato como uma umidade que avisa que vai chover. Tal como o vento que traz o cheiro molhado de longe, esse clima prévio traz um cheiro de sexo. Adoro esse momento que gera certa tensão, deixa as têmporas latejando, liberta a imaginação, esquenta o sangue, e aí quando o ato em si acontece, é só prazer, é como libertar todo este calor que foi represado. Um sexo intenso, como uma tempestade de verão que explode todo o mormaço que parava o ar. Acho que às vezes este momento não é bem compreendido, nem todo mundo gosta de falar das suas preferências antes de fazer algo, aí fica um pouco mais difícil adivinhar na hora. Muitas vezes o que se quer é apenas chegar lá, mas sem se abrir, sem se permitir trocar alguma coisa verdadeira com o outro, sem nem mesmo se preocupar com o outro. Acho mesmo um grande desperdício ter a companhia de alguém e continuar fechado na meta de um prazer tão solitário.